domingo, 28 de agosto de 2011

Infância Perdida... !

A lógica do consumismo impregnada no mundo ocidental é bem danosa, porque cria necessidades desnecessárias, que se iniciam no plano material e transcendem aos demais aspectos da vida. Quando um objetivo material é alcançado, ele já não mais satisfaz, e o consumidor passa a buscar outro produto para acalmar sua ânsia de possuir sempre aquilo que não tem, mesmo que ele já tenha quase tudo. A batalha para se ter sempre mais é constante, e é daí que vão surgindo as concepções individualistas e egoístas que, infelizmente, prevalecem em nossos tempos. Na procura da matéria, as pessoas se esquecem de valores humanistas básicos, não raramente, passando por cima de tudo e de todos para alcançar sua meta.

A maior vilã dessa estória toda é a propaganda, porquanto potencializa a vontade de consumir através de instrumentos de extrema eficácia em termos de influenciação.

Pior ainda é verificar que todo esse projeto recai brutalmente sobre as crianças. É indubitável: os pequeninos são mais vulneráveis às campanhas publicitárias. De acordo com a Associação Dietética Norte Americana Borzekowiski Robison, são necessários apenas 30 segundos para uma marca influenciar uma criança.

Outro dado importante foi confeccionado pelo Centro de Pesquisa Intersciente, cuja pesquisa esclarece que 80% da influência de compra de uma casa advêm das crianças. Os marqueteiros sabem disso, e não poupam esforços para atingir resultados. No intuito de aumentar a arrecadação de seus clientes, direcionam a publicidade para o público infantil sem maiores pudores.

Em posse dessas considerações, podemos observar também que há um desejo dos grandes empresários de que as crianças tornem-se consumidoras diretas desde cedo. Daí a utilização de alguns mecanismos que forçam um amadurecimento precoce dos menores. Quer um exemplo? http://www.youtube.com/watch?v=A0BJ5_ckhHQ&feature=related

Comerciais dessa natureza não têm nada de bonitinho. A intenção é meticulosamente planejada. Funciona assim: o amadurecimento pretendido pelos publicitários vai se pautar, basicamente, na inserção de valores fúteis nos meninos e meninas. Primeiro, retiram-lhes a vontade de brincar criando um mundo sedutor nos aparelhos televisivos, fazendo com que fiquem cada vez mais bitoladas nas atividades que menos lhes acrescentam pessoalmente, preferencialmente as que ceifam a relação das crianças com seus pares, e com o próprio meio ambiente. Não é por acaso que as atividades infantis são cada vez mais individualistas: ver TV, jogar videogame, tampar os ouvidos com fones para ouvir o tocador de mp3, brincar no computador. Quanto mais reclusas elas ficarem, melhor.

A criança passa a assistir mais e a viver menos. Desenvolve com precariedade uma relação de intimidade própria e de auto-conhecimento. Em suma, descobre a si mesma muito pouco. Vai ficando vazia de emoções e de personalidade. Tcha-ram! Embrião pronto para os marqueteiros. Vazias que estão, serão preenchidas com a vontade de comprar. São bombardeadas pelas propagandas de valores fúteis, e vão se tornando mais suscetíveis à opinião alheia e à indução publicitária. É estruturado pelos canais midiáticos – mas não só por eles - um círculo fechado, do qual não se pode participar se não se possuir determinados produtos mostrados nos comerciais. Quanto mais cara a mercadoria adquirida, mais sensação de pertença ao “grupo” se terá.

Dessa feita, as meninas passam a querer se maquiar mais cedo, usar bolsas da moda, ficar horas no salão, pintar a unha com o esmalte novo da Susie! Os meninos não ficam pra trás, chuteiras da marca X – que geralmente são as caras -, sandália do Senninha, e por aí vai. É claro que isso também vai interferir na formação sexual dos pequeninos, que pode, por isso, se dar mais cedo.

Vejamos mais alguns indícios. Há dez anos os desenhos favoritos da galera eram Cavaleiros do Zodíaco, Dragonball Z, Pokemon, desenhos que, querendo ou não, disseminavam ideais de perseverança, amizade, cumplicidade. Ao notar meus priminhos e seus amigos, vejo que uma das febres de hoje é o Ben 10, um menino arrogante que maltrata a irmã. Outro bem famoso é o cartoon “Três Espiãs demais”, protagonizado por três amigas que, enquanto salvam o mundo, se divertem fofocando sobre os gatinhos da faculdade e falando das compras que fizeram no shopping. Ora, os pequeninos vão reproduzir o que vêem em sua volta, isso inclui os heróis dos desenhos, por quem as crianças nutrem verdadeira admiração e também por quem são acompanhadas cotidianamente.

É muito importante que nos perguntemos quais valores queremos passar para a criançada, porque somos nós que permitimos tudo isso. Se desejamos criar uma sociedade menos fútil e, portanto, mais sensível aos problemas do mundo, é preciso que prestemos mais atenção nas nossas crianças.

Para quem quer ir mais a fundo na toca do coelho, um documentário imprescindível sobre o assunto é o “Criança, a alma do negócio”, cujo trailer encontra-se no link:

http://www.youtube.com/watch?v=UbVtDnOyxHE